Capela de Santana, remanescente do Engenho de Santana

No sexto episódio do podcast Projeto Querino, “A Cor dos Faraós”, o jornalista Tiago Rogero narra a história de escravizados que trabalhavam no Engenho de Santana, localizado em Ilhéus, sul da Bahia. Eles exigiam o fim da escala 6X1. O caso ocorreu em 1789. Um documento com as reivindicações foi redigido por um dos raros escravizados alfabetizados. Os escravizados pediam, além do domingo de descanso, as sextas e os sábados. No documento, justificavam as folgas a mais: “(…) Poderemos brincar, folgar e cantar em todos os tempos que quisermos, sem que nos impeçam e nem que seja preciso pedir licença”. 

Como no movimento Vida Além do Trabalho (VAT), que defende o fim da escala 6X1, os trabalhadores escravizados pleiteavam mais tempo livre para o lazer, a diversão e o culto à fé. O idealizador do VAT, Rick Azevedo, vereador eleito pelo Rio de Janeiro na última eleição como o mais votado do PSOL, em entrevista ao jornal Correio Bancário (edição de dezembro/2024), afirmou que é impossível comparar qualquer realidade contemporânea com a brutalidade da escravidão. No entanto, ele disse que a escala de trabalho 6X1 traz resquícios da lógica de exploração do tempo da escravidão.

“O VAT conseguiu transformar uma dor compartilhada por milhões em um movimento que ultrapassa categorias e ideologias” – Rick Azevedo

“No exemplo dado, trabalhadores escravizados de anos atrás pediam apenas dois dias para viverem suas vidas, para sentirem a liberdade de  ‘brincar, folgar e cantar’. Hoje, uma imensa parte dos trabalhadores ainda não consegue isso. Não se trata de comparar períodos, mas de reconhecer que, para muitos, viver dignamente continua sendo um direito negado. A luta por dias de descanso é, no fundo, a luta por dignidade”, disse Rick Azevedo.

A coordenadora-geral do Sindicato dos Bancários/ES, Rita Lima, concorda que a brutalidade da escravidão não permite comparativos, mas aponta que a mentalidade opressora das elites escravocratas da época segue presente em muitos empresários até os dias de hoje. “É inacreditável, mais de 200 anos depois dessa manifestação de escravizados, a classe trabalhadora brasileira está lutando pela mesma reivindicação, ou seja, o trabalhador quer ter o direito de viver sua vida com dignidade, e não apenas trabalhar, trabalhar, trabalhar”, afirma Rita.

“Os empresários continuam oprimindo os trabalhadores e os submetendo a condições desumanas de trabalho. A essência dessa lógica de exploração também não mudou: o lucro continua valendo mais que as vidas humanas. Por isso é tão importante que as centrais, os sindicatos, a classe trabalhadora e a sociedade em geral se unam pela abolição da escala 6X1. Isso mesmo, abolição. Esse é o termo que melhor expressa a situação opressora de um trabalhador submetido a essa escala desumana”, critica Rita.

Conhecimento de causa

Em setembro do ano passado, Rick Azevedo, então balconista de farmácia no Rio de Janeiro, gravou um vídeo na rede TikTok fazendo um desabafo contra a jornada 6X1. O vídeo viralizou porque muitos trabalhadores se identificaram com o seu relato. Rick dizia que a escala 6X1 era uma espécie de “escravidão moderna”. A pauta pelo fim da 6X1 foi o mote da campanha de Rick à Câmara dos Vereadores. O candidato foi eleito com mais de 29 mil votos – o mais votado do PSOL. A ideia foi encampada pela deputada federal Érika Hilton (PSOL), que conseguiu as assinaturas
necessárias para protocolar uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC) na Câmara. 

Sem vida além do trabalho

Confira a seguir os relatos de trabalhadores e trabalhadoras submetidos à escala 6X1 na Grande Vitória. Os nomes(*) usados na reportagem são fictícios para evitar que os trabalhadores sofram represálias dos empregadores.

Depressão e Burnout

Lívia*, 22 anos, desenvolve a função de e-commerce em um supermercado. o e-commerce é o trabalhador que faz as compras online para os clientes. Como todos os colegas de supermercado, Lívia trabalha na 6X1. Sua principal queixa sobre a escala é a falta de tempo livre para poder sair e se divertir, ficar mais com familiares e amigos. Mesmo nessa escala exaustiva, ela conseguiu fazer uma graduação  semi-presencial de dois anos (tecnóloga). Mas lamenta não ter se dedicado como gostaria ao curso. “Chegava em casa do trabalho e não tinha motivação para estudar. Quando você está de folga, só quer dormir”. O esforço para conciliar trabalho e estudo teve um preço alto. Lívia entrou em depressão e foi diagnosticada com Burnout. Ele segue tomando remédios controlados e sob acompanhamento psiquiátrico. 

“Não tenho tempo para as pessoas que eu amo”

“Escala 6×1 pra mim não é vida. Vira e mexe o meu namorado briga comigo porque a gente não consegue mais ficar juntos. Eu vivo pelo trabalho. Acordo às 4 da manhã pra ir trabalhar e só chego em casa às 17h. Não tenho forças para mais nada. Tem dia que nem consigo me concentrar no trabalho. Percebo que a minha produtividade cai por causa do cansaço. Não tenho tempo para as pessoas que eu amo. Há mais de um mês não vejo a minha mãe e nós moramos na mesma cidade”, diz Ana*, 22 anos, que trabalha numa farmácia. 

Trocou o soldador pela tesoura

Hoje Luiz* é barbeiro, mas antes trabalhava como soldador na escala 6X1. “Eu tinha crises de ansiedade por causa da sobrecarga de trabalho. Não conseguia me divertir, sair com os amigos”. Como barbeiro autônomo, Luiz disse que teve sua vida de volta. Mas se penaliza com a situação da companheira. “Minha esposa trabalha na 6X1. Vejo ela chegar cansada do trabalho sem disposição para nada”. Ele diz que passou a acreditar que o movimento VAT pode conseguir a redução da jornada. 

Jornada reduzida, vida mais leve

Mariana* acredita que se tivesse pelo menos um dia a mais de folga, sua vida ficaria muito mais leve. “Imagina ter tempo para resolver as minhas coisas, tempo para me divertir, passear…Fora a minha saúde física e mental iria melhorar 100%”. A balconista de farmácia de 23 anos diz que a escala 6X1 é torturante. Ela confidencia que já pensou em tirar a própria vida. “Não suportava mais a pressão. Não tinha tempo para cuidar da minha saúde. A gente não pode ficar indo ao médico e pegando atestado o tempo todo. Você fica marcada”, afirma.