Inovações tecnológicas tentam esconder processo de precarização do ramo financeiro

06/12/2023 17:05

Assessor econômico de entidades sindicais bancárias do Dieese, Gustavo Cavarzan estudou a “Fragmentação e Isolamento: grandes tendências do capitalismo contemporâneo e o mundo do trabalho no setor financeiro no Brasil”, tema da pesquisa do seu doutorado na Unicamp (2022) 

Gustavo Cavarzan, assessor econômico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), no trabalho de pesquisa da sua tese de doutorado (Unicamp, 2022) se propôs compreender as transformações no modo de operar das empresas financeiras no Brasil a partir do biênio 2012/2013, vinculadas ao contexto mais geral observado no capitalismo contemporâneo após a crise internacional de 2008, e de que forma estas transformações reconfiguraram o emprego no setor financeiro brasileiro, bem como a atuação do sindicalismo bancário, que se reposiciona estrategicamente diante de cenário adverso à organização coletiva. 

“A hipótese central aqui desenvolvida é que a aceleração e intensificação da reestruturação produtiva nas empresas financeiras no Brasil, ao se apropriarem das inovações tecnológicas típicas da quarta revolução industrial e do arcabouço regulatório flexível das normas trabalhistas e de regulação do Sistema Financeiro Nacional, estão reorganizando o mundo do emprego financeiro no Brasil, levando a um processo contínuo de fragmentação e isolamento da força de trabalho do setor, inclusive por meio da concretização dos primeiros ensaios de plataformização do trabalho no setor”, escreveu Cavarzan no resumo da sua pesquisa de doutorado.

As sucessivas inovações tecnológicas mundo afora aumentaram a capacidade de produção do capitalismo. Mesmo assim, para ampliar suas margens de lucro, o capitalismo recorre à precarização do trabalho. Essa precarização, que antes estava restrita aos países periféricos, de uns anos para cá, também atinge os trabalhadores de países centrais. Essa versão ainda mais perversa do capitalismo não poupa mais nenhum trabalhador?
Eu diria que sim. Há um fenômeno relativamente novo que acontece a partir [da crise financeira] de 2008. Mas desde os anos 1930, na verdade, na passagem de um capitalismo do tipo mais apoiado na produção, havia naquele contexto o próprio consumo da classe trabalhadora como um dos seus motores, e que, portanto, precisava, até para ser funcional ao sistema, manter uma certa valorização dos salários. Esse capitalismo do tipo fordista entra em crise nos anos 1970, inclusive, no centro do capitalismo. Como afirmam alguns autores, começa a ocorrer ali uma ‘revolta do capital’. Na verdade, contra o capitalismo regulado. Desde então, até um mercado de trabalho diferente, muito menos centrado nas ocupações mais protegidas, muito mais fragmentado e crescendo nas periferias, nas franjas, em ocupações mais precárias. Esse processo já vem dos anos 1970. Em 2008, há um novo salto desse fenômeno. A crise gerada pelo neoliberalismo tem uma curiosidade. Apesar de ter sido gestada pelo neoliberalismo, a saída dessa crise é gerenciada nos países centrais por ultra neoliberais. A resposta que se dá à crise de 2008, difere da de 1930, por exemplo, quando há uma resposta do tipo mais keynesiana, com o estado atuando. Há basicamente dois processos que começam a ganhar força com o objetivo de recompor as margens de lucro daquele sistema que está em crise. 

Um desses processos é a inovação tecnológica?
Sim. Uma série de inovações tecnológicas que já existiam desde a 3ª Revolução Industrial [no pós-Segunda Guerra Mundial], mas que ganharam um novo impulso a partir de 2008, com a chamada 4ª Revolução Industrial. E é uma série de processos de flexibilização de leis e regras trabalhistas no mundo ocidental, inclusive nos países desenvolvidos. Vieram as reformas trabalhistas, todas muito parecidas, na Espanha, França, Alemanha, Inglaterra, nos Estados Unidos, em várias partes do capitalismo ocidental, semelhantes à que aconteceu no Brasil [2017]. A soma desses dois processos, que na verdade são os dois lá no mesmo moeda, trouxe a precarização trabalhista junto com essas inovações tecnológicas. Elas vão surgir nesse contexto para renovar as faixas de lucro do capitalismo em crise. E isso ocorre, inclusive, no centro do capitalismo. 

Levantamento da Federação Brasileira dos Bancos [Febraban] indicou que o setor estimava investir 45 bilhões de reais na área de tecnologia em 2023. Para se ter uma ideia do salto, em 2019 os investimentos em tecnologia estavam na casa de 24 bilhões de reais. Fica evidente que a pandemia fez com que os bancos acelerassem os investimentos em tecnologia. Essas inovações, porém, não foram pensadas para melhorar as condições de trabalho da categoria bancária, como por exemplo, reduzir a carga horária de trabalho. Ao contrário, esses mecanismos digitais têm servido para intensificar o trabalho por meio da cobrança de metas. Podemos dizer que a plataformização do trabalho chegou aos bancos?
Isso tem tudo a ver com esses dados que você citou de investimentos tecnológicos no setor, e também com a regulação trabalhista. Vou dar um exemplo. A reforma trabalhista brasileira trouxe a possibilidade da contratação de trabalhadores autônomos exclusivos. Pessoa que é autônoma, mas não tem trabalho só para uma empresa. Isso é uma inovação legislativa feita aqui. Essa figura do trabalhador autônomo exclusivo começa a ganhar corpo no setor financeiro por meio de um profissional específico, que se chama agente autônomo de investimentos. Esses agentes autônomos trabalham em corretoras como a XP Investimento, Ágora e assim por diante. Essas corretoras, na sua grande maioria, pertencem aos bancos. Os bancos estão usando a força de trabalho desses trabalhadores autônomos para construir o seu lucro. Esses trabalhadores têm várias características que são, sim, típicas da plataformização. Eles não têm contrato de trabalho, são obrigados a fazer investimentos por conta própria para focar em um negócio. O material de divulgação dos produtos financeiros, o escritório para receber clientes é tudo por conta dele. Assim como o motorista da Uber precisa comprar o seu carro, o agente autônomo de investimento precisa garantir esse investimento por sua conta. A remuneração desses agentes de investimentos é totalmente variável, uma comissão que ele recebe em cima de cada venda que faz. Não tem jornada de trabalho definida, tampouco controle de jornada. Esses elementos são todos da plataformização do trabalho. Principalmente desde 2016, a plataformização está crescendo no setor financeiro. Ainda são a minoria dos empregos no setor, porque esse é um setor muito formalizado, com uma força de trabalho ainda predominantemente celetista, mas a plataformização vem ganhando força. O movimento sindical tem de ficar muito atento a esse processo. 

No caso do setor bancário, apesar da organização sindical e das lutas históricas da categoria, podemos dizer que a plataformização vem aos poucos ganhando terreno e desmontando essa arcabouço de conquistas trabalhistas?
Eu acho que em algumas esferas, sim. Primeiro você tem a tecnologia, que é o setor que sempre foi uma atividade meio dos bancos. Mas hoje em dia as áreas de negócio e tecnologia dos bancos andam lado a lado.  Isso faz com que essas novas figuras que vão surgindo [agentes de investimentos], mas há também o exemplo das fintechs. Essas novas figuras vão sendo, de alguma maneira, absorvidas pelos bancos, passam a ser incorporadas pelo Bradesco, Itaú, Santander… Alguma característica muito importante da plataformização do trabalho, ou da uberização, é o altíssimo grau de controle que essa tecnologia permite que o empregador tenha sobre o trabalho do empregado. Por exemplo, a Uber consegue ver quanto tempo o motorista demorou para fazer cada entrega, quanto tempo ficou com o aplicativo ligado, quanto tempo ele trabalhou efetivamente etc. No caso do setor bancário, se imaginarmos os trabalhadores em home office, essa realidade é idêntica. Hoje em dia há softwares que permitem ao banco saber quantos cliques o trabalhador deu em determinado programa durante tanto tempo ou quanto tempo o computador do bancário ficou inativo. Na verdade, o desenvolvimento tecnológico, que sempre foi algo que a classe trabalhadora viu como uma oportunidade de reivindicar uma redução da jornada de trabalho, está sendo usado para intensificar a jornada de trabalho. Em termos de horas trabalhadas, hoje em dia, você acaba utilizando os meios telemáticos para trabalhar de casa ou de qualquer lugar, a qualquer hora. Por exemplo, se você levanta para tomar café enquanto está na tela de trabalho, isso é automaticamente identificado por um software de controle que gera um relatório para a sua chefia, e que aquilo pode te trazer um problema. Para usar o termo mais clássico, você tem tanto um aumento da mais valia absoluta quanto da mais valia relativa, trazido por essas inovações tecnológicas.

Segundo levantamento do Dieese, em 1994 os bancários eram 80% dos trabalhadores do ramo financeiro; em 2022, representam apenas 44%. Enquanto o centro do ramo financeiro demite, a chamada periferia do setor abre vagas para assumir operações que eram típicas de banco. Essa é uma estratégia dos bancos?
Eu acho que sim. É um encolhimento muito forte dos estratos mais baixos da pirâmide de ocupação nos bancos, que são os trabalhadores que o movimento sindical tem mais contato nas agências, o caixa, o escriturário, o atendente de agência. Há um encolhimento desse núcleo e um aumento dos níveis mais gerenciais e também da área de tecnologia. O que está acontecendo no emprego, se a gente olhar só para o banco, é isso. Mas quando expandimos um pouco a análise, percebemos que os bancos não querem dizer exatamente que aquele trabalho que era feito pelo caixa ou pelo escriturário não é mais feito por ninguém, que essas operações foram transferidas para o celular do cliente. Isso é uma parte da história. A outra parte é que esse emprego foi para a periferia do sistema e ele segue servindo aos mesmos bancos que demitiram esses bancários. A diferença é que agora esse público é atendido pelo correspondente bancário. Então, por exemplo, o Itaú fechou agências, mas na propaganda diz que isso aconteceu porque o Brasil está virando um país digital. Mas, ao mesmo tempo, o Itaú contratou dezenas de milhares de estabelecimentos como correspondente bancário. Para quê? Para atender justamente essa população que ia na agência bancária pagar contas, que era atendida presencialmente. 

Qual é a estratégia por trás deste processo de reestruturação do setor bancário imposta pelos bancos?
Os bancos querem ficar com trabalhadores, vamos dizer assim, que estão nas posições mais altas na pirâmide ocupacional, e querem se livrar desses mais baixos. Na visão do banco, o caixa, por exemplo, é muito caro para o retorno que traz para o negócio. O banco não quer manter um trabalhador, pagar o piso que a Convenção Coletiva de Trabalho garante, PLR etc. O caixa é um trabalhador que tem jornada de 6 horas diárias e que fica alocado na agência para o recebimento de contas, transferências etc, operações que o banco considera pouco rentáveis. O banco decide então terceirizar essas operações e transferi-las para os correspondentes bancários. 

As agências de negócios estão dentro deste pacote de “inovação” tecnológica?
Você vai na agência select sei lá o quê, e você vai ser atendido por um gerente. Essa agência não tem caixa, mas tem um gerente para você fazer negócios. O banco paga o trabalhador próprio porque o negócio é rentável para ele. Temos visto surgir no país uma série de novos bancos que se dizem digitais porque têm atendimento exclusivamente digital. Por exemplo, o C6 tem uma agência bancária [física] que é só a sede do banco mesmo. Agora o próprio C6 tem 12 mil correspondentes bancários contratados do banco. São locais físicos nos quais esse banco está vendendo seus produtos. Será que é totalmente digital mesmo? Não é. A única questão é que os bancos digitais se aproveitam de mecanismos permitidos pela regulação para fazer a venda que, antes, deveriam fazer dentro da sua agência com o bancário, mas que agora as fazem com o trabalhador terceirizado que recebe um quarto do salário [de um bancário] e tem uma jornada que é 5 horas maior por semana.

Para estancar esse desmonte do setor bancário, você acredita que um dos caminhos do movimento sindical é integrar esses trabalhadores que estão na periferia do sistema financeiro?
Eu diria que sim. Acho que esse desafio é urgente. Na minha tese de doutorado [“Fragmentação e Isolamento: grandes tendências do capitalismo contemporâneo e o mundo do trabalho no setor financeiro no Brasil”,  inclusive em uma parte dela me dediquei a estudar justamente as respostas do sindicalismo bancário. A conclusão que chego é que o sindicalismo bancário respondeu muito bem a esse cenário todo. Ao analisar a minuta de reivindicação da categoria nos últimos 10 anos, é impressionante. Vemos que a cada novo formato empresarial, a cada novo modelo de agência que o banco inventa, esse debate é automaticamente jogado para a minuta, a categoria de debate, o movimento sindical de debate, coloca na minuta, cria uma cláusula, vai debater na mesa de negociação, e muitas vezes consegue avançar. O sindicalismo bancário brasileiro obteve algum êxito em proteger o núcleo central reduzido do emprego financeiro – representado pela categoria bancária – no período recente, mas foi incapaz, até o presente momento, de traçar estratégias mais eficazes para os grupos periféricos em expansão do emprego no setor, como os securitários, trabalhadores de cooperativas de crédito, correspondentes bancários, agentes autônomos de investimento e trabalhadores de plataformas de serviços financeiros.