Em pronunciamento na última sexta-feira, 30, o governador Renato Casagrande fez um balanço da quarentena que se estendeu de 18 de março a 19 de abril. O chefe do Executivo afirmou, com base em dados do Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN), que as medidas restritivas evitaram mais de 800 mortes no Estado. Embora o Espírito Santo tenha batido em abril o recorde de mortes desde o início da pandemia (1.895), Casagrande classificou o resultado da quarentena como “extraordinário”.

Para a diretora do Sindicato dos Bancários/ES Lizandre Borges chega a ser constrangedor o governador exaltar sua gestão à frente da pandemia quando se tem quase duas mil vidas interrompidas pela covid num único mês. Primeiramente, não há nada a se comemorar quando sabemos que 9.517 pessoas já morreram vítimas da civid [dados atualizados até 30/04]. Somos o sétimo na lista dos estados mais letais do país, com média de 237 óbitos por grupo de 100 mil habitantes. Só nos quatro primeiros meses do ano foram 4.370 óbitos”. A dirigente acrescenta que, além de enaltecer os resultados completamente apartado da realidade, há ainda a controvérsia dos números “festejados” pelo governo.

No dia 05 de abril, o Sindicato pulicou uma matéria no seu site usando um modelo matemático desenvolvido pelos pesquisadores do Geocovid (www.covid.mapbiomas.org/). O modelo faz projeções considerando as variáveis a partir daquele dia analisado para cenários com aplicação de lockdown, sem medidas de isolamento e levando em conta as medidas que estavam sendo aplicadas naquele momento (quadro abaixo).

A quarentena teve início em 18 de março com medidas bastante flexíveis. Pressionado pelo aumento diário de novos caso e óbitos e com as taxas de internação de UTI acima de 90%, o governador, temendo o colapso generalizado do sistema de saúde, anunciou uma versão mais rígida da quarentena que vigorou especificamente de 04 a 12 de abril.

O modelo matemático da GeoCovid aplicado na matéria publicada no dia 05 (tabela abaixo) projetava que o Espírito Santo poderia ter 739 mortes se adotasse o lockdown no período de 5 a 30 de abril. Caso mantivesse as medidas que vigoravam naquele momento, um pouco mais restritivas, mas longe de ser um lockdown, essas mortes subiriam para 1.109. Sem medidas restritivas os óbitos chegariam a 1.619. Os dados consolidados em abril (1.895 óbitos) acabaram superando mesmo as projeções sem restrições (1.619).

Taxa de isolamento

A taxa de isolamento social do Painel Covid do Governo do Estado também vai na contramão da avaliação positiva que está sendo propalada por Casagrande. Segundo os dados replicados pelo Governo, que são produzidos a partir das informações das operadoras de telefonia celular, a taxa de isolamento social antes da adoção das medidas restritivas estava na faixa de 42% e subiu para 45% durante a quarentena (quadro abaixo).

A dirigente aponta que a taxa de isolamento teve uma oscilação muito discreta antes e durante a quarentena. Ela diz que o governador, porém, preferiu omitir os números que depõem contra esse discurso que enaltece a efetividade da quarentena. “Lembramos que os dados de isolamento são replicados pelo próprio governo, mas acho que seria difícil para ele explicar por que não houve praticamente alteração nas taxas antes e durante a quarentena”, questiona. Os especialistas consideram que o isolamento social é efetivo quando as taxas alcançam o índice entre 70 e 75%.

Guerra de narrativas

“Sabemos que tanto as projeções do GeoCovid são como as taxas de isolamento são estimadas e há uma série de variáveis que podem causar desvios. Haverá aqueles que se apressaram em ponderar que as interpretações desses dados fazem parte de uma guerra de narrativas com viés muito mais político do que técnico. Polêmicas à parte, o modelo da GeoCovid apontou que com a adoção do lockdown teríamos 739 mortes. No final das contas tivemos 1.895, ou seja, 1.156 vidas poderiam ter sido salvas. De acordo com narrativa do governador, ele tenta convencer a população de que, apesar das 1.895 mortes, outras 800 foram evitadas”.

Lizandre chama atenção para o fato de boa parte da comunidade científica séria defender o lockdown como única medida efetiva para conter as curvas de transmissão e mortes. “Há uma lista robusta de pesquisadores renomados mundialmente da Fiocruz e de diversas universidades públicas que vêm insistindo no lockdown enquanto a vacinação ainda anda a passos lentos para atingir a meta da imunização coletiva, que é de 70% para cima”. No Espírito Santo, apenas 8% já tomaram a segundo dose da vacina.

O Sindicato, continua a dirigente, sempre comungou ao lado da ciência e se posicionou como crítico da política negacionista de Bolsonaro, que já enterrou mais de 400 mil brasileiros. “Nossa missão, como entidade sindical, tem sido em defesa da vida da categoria bancária e da classe trabalhadora em geral. Jamais seremos condescendentes com a gestão de Casagrande, que aparentemente se arvora como crítico de Bolsonaro, mas também prioriza a economia em detrimentos das vidas”, protesta a dirigente.

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