“Metas desumanizam e adoecem”, diz psicólogo

27/05/2022 08:47

André Guerra, doutor em Psicologia Social e Institucional e psicólogo do Sindicato dos Bancários de Porto Alegre (RS), fala nesta entrevista concedida ao jornal Correio Bancário, do Sindibancários/ES, sobre o modelo de gestão nos bancos e o crescente quadro de adoecimento psíquico na categoria.

No atendimento a bancários, quais as queixas mais comuns em relação ao adoecimento psíquico?
Noto bancários cada vez mais jovens buscando atendimento. Jovens por idade, com menos de 30 anos, mas também com pouco tempo de banco. Às vezes pessoas que estão incapacitadas para o trabalho com cinco anos de banco. E os bancários não trazem uma questão individual propriamente, eles dizem “olha, eu não estou dando conta das metas, da pressão”. O que é mais impactante é que eles chegam destruídos na sua dignidade. A queixa, portanto, está vinculada à sensação de humilhação; eles chegam pequenos, se sentindo fracassados e incompetentes.

Como a gestão do trabalho e a pressão por metas afeta a saúde psíquica dos bancários?
Fiz há dois anos uma pesquisa sobre os métodos de avaliação de desempenho e tomei como exemplo o Trilhas, o mecanismo de avaliação do Itaú. Mas a natureza desses instrumentos é comum a todos os bancos. Eles são a principal técnica para gerenciar o trabalho bancário. À primeira vista, esses instrumentos parecem ser de quantificação de resultados, mas o objetivo não é apenas descrever os resultados obtidos, mas prescrever o desempenho dos bancários. E isso vem oculto. Quando o bancário se queixa das metas, ele faz referência à forma como as metas são exigidas. E essa forma é indissociável desses instrumentos de avaliação.

E como eles funcionam?
Eles têm uma lógica perversa, que é fazer com que os resultados sejam atingidos mediante o pânico daqueles que, por alguma razão, não alcançaram um desempenho. E a situação fica mais drástica porque o próprio desenho desses instrumentos exige que uma porcentagem de bancários seja excluída dos bons resultados. Não é que os bancários estão com dificuldade de bater a meta; é que os instrumentos criam obstáculos para que nem todas as pessoas atinjam as metas. No Trilhas, o mecanismo exigia que, no mínimo, 15% do grupo fosse classificado com uma performance baixa, independentemente dos resultados atingidos. Por outro lado, a quantidade de bancários com performance excelente era limitada a 50%. Ao fazer isso, você cria entre os colegas não mais uma competição para bater as metas, é pior, é uma competição para ver quem será o excluído. A essência desse mecanismo de gestão está em desumanizar as pessoas, exigindo delas, para sobreviver, condutas abjetas para consigo e para com os colegas.

Há uma consciência de que os problemas emocionais vivenciados por esses trabalhadores podem estar relacionados ao trabalho?
Todos esses bancários têm algum nível de consciência, mas algumas coisas não dependem só deles. Ele é bombardeado todos os dias de que a causa e a resolução dos seus problemas são individuais. Então, apesar de ter um nível de consciência, esse trabalhador está confuso, como se não soubesse se deveria acreditar naquilo que sente e vivencia. O que percebo centralmente é uma naturalização da exploração. Qual o pensamento? “Eu estou sofrendo, sendo explorado, mas quem não está? Todos ao meu redor são explorados, isso é natural, pelo menos tenho um emprego que me remunera bem”. Também percebo bancários cada vez mais jovens, de origem humilde, que mencionam ser uma das primeiras pessoas da família a cursar o ensino superior, a ter um bom emprego, e isso faz com que eles valorizem ainda mais o que é oferecido pelos bancos, sem perceber que isso é à custa de sua própria saúde.

Além do apoio psicológico, o que mais é necessário para que o trabalhador recupere a saúde?
Esse espaço de atendimento e acolhimento pode ajudá-lo a entender o seu sofrimento e a natureza dele. E o bancário se abre para a possibilidade de que alguma coisa deve ser feita, que não simplesmente desenvolver métodos e recursos para suportar o que ele está vivendo. Nesse sentido, o processo de promoção da saúde também está relacionado com a conscientização. Quando a pessoa percebe que ela foi humilhada, que teve a saúde e a dignidade roubadas, vai perceber que aquilo que ele achava que o banco estava dando para ela, na verdade era ela que estava dando para o banco. Isso é um processo doloroso de conscientização, que gera revolta, e que precisa se encaminhar para alguma forma de luta.