Número de pessoas nas filas segue alto (Foto: Sérgio Cardoso)

Com o retorno potenciado da cobrança de metas na Caixa, bancários e bancárias estão lidando novamente com o drama da formação de filas nas agências, motivadas muitas vezes por atendimentos que não estão ligados aos serviços essenciais, como determinam os decretos legislativos estaduais e federais que regulamentam o funcionamento dos bancos durante a pandemia.

O Sindicato tem recebido denúncias de bancários da Grande Vitória e do interior onde as situações de filas se repetem, com pressão dos gestores para que todos os clientes sejam atendidos no interior das agências, independente do tipo de atendimento.

“Depois que a Caixa voltou a cobrar metas, os gerentes estão relaxando as regras de triagem e colocando para dentro das agências todas os clientes a fim de fecharem negócios. Para isso, parte significativa dos empregados que antes se dedicava exclusivamente ao atendimento emergencial foi girada para a área comercial, o que também contribuiu para a demora no atendimento e formação de filas”, explica a diretora do Sindibancários/ES Lizandre Borges, empregada da Caixa.

A Caixa restabeleceu a política de cobrança de resultados no início de junho, rompendo acordo com o movimento sindical de não exigir metas durante a pandemia. Desde então, o banco tem criado campanhas voltadas para incentivar a venda de produtos, como o “Dia D”, realizado no dia 24 de junho, quando os empregados foram orientados a, no mínimo, dobrarem a venda de seguros residenciais e outros produtos bancários.

Nesta quarta, 08, o banco divulgou ranqueamento de agências expondo o resultado do “desafio dos eventuais”. Bancários eventuais são aqueles que não possuem função efetiva, como gerentes, e fazem substituições eventuais em cargos de comissão, por isso o nome. O grupo de empregados foi mobilizado para nova campanha de venda, que mirou seguros e cartões de crédito.

Para garantir ao cumprimento das metas, a Caixa tem convocado os empregados que estão em home office a voltarem ao trabalho presencial. A primeira chamada veio em forma de uma campanha de voluntariado, e depois, por convocação direta feita por telefone, através de ligação ou mesmo de mensagens via WhatsApp.

Para Lizandre, a política da Caixa traz consequências diversas para a categoria bancária e para a população. “A direção do banco incentiva a circulação de pessoas nas agências, contra todas as orientações que apontam a necessidade de isolamento social, o que aumenta a exposição de bancários e clientes ao risco de contaminação pela covid-19. Além disso, o banco sobrecarrega os empregados com a venda de produtos que não são essenciais e inverte a prioridade do atendimento, o que demonstra descaso com aqueles que realmente precisam acessar o auxílio emergencial e outros benefícios durante a pandemia”, salienta a diretora.

A preocupação com o isolamento não é à toa. O Espírito Santo registrou na última terça-feira, 7, o pior índice de isolamento desde o início da crise sanitária. O percentual de isolamento no Estado foi de 44,21%, quando o recomendado pelo próprio governo estadual e pela Organização Mundial da Saúde é 70%. O baixo índice reflete, em grande medida, a política adotada pelo governador Renato Casagrande de flexibilizar as atividades comerciais, enquanto joga apenas para a população a responsabilidade de cumprir o isolamento. Enquanto isso, o número de capixabas vitimados pela covid-19 se aproxima de dois mil (foram 1.912 óbitos em 09/07, até o fechamento desta matéria), além de 58.841 casos confirmados.

Em âmbito nacional, o Brasil registrou somente nesta quinta-feira 1.312 novas mortes por covid-19, totalizando 66.868 vítimas em todo país. O número de casos já passa de 1,6 milhão (1.674.655).

“É importante denunciar que a gestão da Caixa segue as diretrizes do governo federal, que desde o início da pandemia está minimizando os riscos da doença, negando a ciência e menosprezando as vidas perdidas. Tudo para atender a pressão do mercado e dos grandes empresários de retomar a atividade econômica. Nesse contexto, os empregados da Caixa mostraram-se essenciais para a gestão das políticas públicas assistências, que é dever do banco público e que deve ser a prioridade nesse momento de crise sanitária, e não a venda de produtos”, critica Lizandre.

Na ponta

O grande número de clientes nas agências tem elevado a pressão para quem trabalha na ponta do atendimento bancário. Com menos bancários para o atendimento emergencial e a demora das filas, os empregados que fazem o atendimento precisam lidar muitas vezes com o desespero e a insatisfação dos clientes, em situações que não raramente culminam em agressões.

Nesta quarta-feira, 08, um bancário teve que registrar boletim de ocorrência contra uma cliente que se alterou durante um atendimento fazendo ameaças aos funcionários da Caixa, depois que não conseguiu realizar o saque em dinheiro de um benefício disponível na conta digital. As datas para uso do recurso na conta digital e para o saque em espécie são diferentes e fixadas pelo sistema da Caixa, não havendo possibilidade de alteração pelos empregados nas agências. Mesmo tendo explicado o funcionamento do aplicativo e as regras para o saque, a cliente não se acalmou e a Polícia Militar teve que ser acionada para conter a situação.

“As preocupações dos clientes são justas, muitos deles precisam acessar o benefício para comprar comida, pagar o aluguel ou outras necessidades urgentes. Mas quem recebe as críticas e sofre com a política gestada pela Caixa, diretamente, são os empregados, que não têm influência sobre a dinâmica de pagamentos. Como se não bastasse isso, os bancários ainda precisam oferecer a esses clientes uma série de produtos que estão fora das suas prioridades, pressionados por metas que precisam ser cumpridas”, critica Lizandre.