A Polícia Federal confirmou na última sexta-feira, 16, que os remanescentes humanos encontrados no Vale do Javari, na Amazônia, são do indigenista Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips. A confirmação das mortes só veio 11 dias depois da notícia do desaparecimento, mas, lamentavelmente, a expectativa dos indígenas que iniciaram as buscas, antes mesmo dos agentes da PF, era de que Bruno e Dom não fossem encontrados com vida.
A expectativa pessimista não fora construída a partir de um instintivo mau presságio, mas a partir do histórico de execuções de ambientalistas e indígenas na Amazônia. Os assassinatos do ativista político e sindicalista Chico Mendes e da freira americana Dorothy Stang, respectivamente executados em 1988 e 2005, confirmam que a violência contra os que militam em defesa da floresta e dos povos originários é endêmica na região. Mas os números mostram que houve uma flagrante escalada dessa violência sob o governo Bolsonaro.
De 2019 para cá, os conflitos no campo se intensificaram. Nos dois primeiros anos do governo Bolsonaro, os assassinatos de indígenas cresceram 61%, ao mesmo tempo que as invasões de suas terras por grileiros, garimpeiros e madeireiros aumentaram em 137%. Os dados são do Relatório do Conselho Indigenista Missionário.
“Há um método explícito do governo Bolsonaro para eliminar os índios e tomar suas terras”, afirma a coordenadora-geral do Sindicato dos Bancários/ES, Rita Lima. A dirigente recorda da fatídica reunião ministerial de 22 de abril de 2020, que desvelou os meandros desse método perverso do governo Bolsonaro. Na ocasião, o então ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, alertou o presidente sobre o que considerava ser uma oportunidade aberta pela pandemia. Salles queria aproveitar que as atenções da mídia estavam voltadas para a crise sanitária para “passar a boiada”, ou outras palavras, atropelar as leis ambientais e avançar sobre terras demarcadas.
Mas o projeto para usurpar as terras indígenas, destaca Rita, é ainda anterior. Ela lembra que durante a campanha eleitoral de 2018, Bolsonaro já havia avisado que, se eleito presidente, “passaria a foice no pescoço da Funai”. Segundo a dirigente, além de tutelar a violência contra os povos originários, o método do governo inclui o desmonte do principal órgão executor da política indigenista no país.
“Bolsonaro cumpriu a promessa de ‘passar a foice’ na Funai. O órgão está sendo desmontado justamente para não oferecer resistência a essa marcha genocida que avança sobre os povos indígenas. Servidores como Bruno, exonerado pelo governo do cargo de coordenador-geral de Índios Isolados, vinha lutando em defesa dos índios e de suas terras. Imediatamente, se tornou um obstáculo, assim como o jornalista britânico, que vinham denunciando sistematicamente esses crimes na imprensa internacional”, aponta Rita.
A dirigente diz que a perseguição a ativistas de direitos, típica de regimes fascistas, tem se repetido em vários segmentos socais. “Nos meios sindicais, temos sentido isso na pele. Desde que assumiu o governo, Bolsonaro tenta enfraquecer o movimento sindical, seja por meio de Medidas Provisórias ou perseguindo e reprimindo a militância. A estratégia é nos neutralizar porque defendemos os direitos dos bancários e das bancárias. Somos empecilhos, porque a política do governo é justamente no sentido de retirar direitos da classe trabalhadora e beneficiar o capital”, critica Rita.
“As execuções do indigenista e do jornalista não deixam nenhuma dúvida de que estamos sob um governo fascista. Por isso a manifestação de repúdio a essas mortes se faz tão necessária. Esse método de desmonte das instituições públicas e de ataque a ativistas que militam pela defesa de direitos está disseminado por diversos segmentos, esgarçando o tecido social de resistência. É nosso dever, na condição de entidade sindical que luta em defesa dos direitos dos trabalhadores, engrossar o coro dos que exigem das autoridades a rigorosa e isenta apuração dos crimes. Em memória a Chico, Dorothy, Bruno e Dom, e tantos outros que perderam suas vidas em defesa de uma causa, vamos seguir firmes no front para derrotar esse governo genocida e restabelecer a democracia neste país”, afirma Rita Lima.








