O isolamento social decorrente da pandemia do coronavírus nos impõe um primeiro de maio diferente. Neste ano, não nos encontraremos nas ruas. Mas ainda que distantes fisicamente, permaneceremos unidos pelo propósito de nossa classe, pela exigência de resistirmos por nossos direitos e nossas vidas.
O acirramento da crise política e econômica provocado pela pandemia reposiciona como bandeira urgente a superação do capitalismo como sistema regente da sociedade. Esse deve ser o norte de nossas resistências cotidianas, quando pleiteamos a manutenção do emprego e dos direitos já conquistados; a valorização da saúde pública e de seus profissionais; mais investimentos em educação e em políticas sociais; a redução da concentração de renda e das desigualdades, o fim do racismo, da violência contra mulher e da homofobia – reivindicações igualmente imperativas e indispensáveis na construção de nossas lutas mais gerais.
A pandemia também expõe de forma límpida uma característica estruturante da humanidade: é o nosso trabalho que sustenta o mundo. E, quando submetido ao capital, é nosso trabalho também que alimenta os lucros e a riqueza apropriada privadamente pelas empresas.
Não à toa, os governos, em âmbito federal e estadual, pressionados pelo mercado, insistem em flexibilizar ou incentivar o fim do isolamento social para a retomada da atividades econômicas, a despeito de ser o isolamento a medida mais eficaz para conter a disseminação do vírus e preservar vidas.
Soma-se a essa forma de necropolítica as sistemáticas investidas contra os direitos trabalhistas e sociais nos últimos anos. Para atender aos interesses dos patrões, entre eles banqueiros, empresários da indústria, do ramo de serviços e do agronegócio, foram implementadas, nas suas diferentes versões, a reforma da Previdência, a trabalhista e o ajuste fiscal que congelou os gastos públicos por 20 anos. Como resultado, temos o sucateamento dos serviços de atendimento à população, a elevação do desemprego e da informalidade. E temos mais mortos.
Segundo dados do Ministério da Saúde, hoje, em 30 de abril, são 78.162 casos confirmados de coronavírus e 5.466 óbitos. Um taxa de letalidade de 7%. Considerada a subnotificação, estima-se que o número real de casos gire em torno de 1.201.686, segundo estudo feito pela USP e divulgado pelo jornal O Globo. Tomados em conta os dados oficiais, o Brasil já superou a China em número de mortes, país de origem da doença, que somou 4.663 óbitos pela covid-19.
Nesse momento de grave crise humanitária e de saúde, que ameaça sobretudo a vida dos trabalhadores e das trabalhadoras mais vulneráveis, é tarefa da classe trabalhadora reforçar os laços de solidariedade para enfrentar não só a pandemia, mas também o conjunto de políticas que retiram direitos, como as recentes Medidas Provisórias 936 e 927, lançadas pelo governo Bolsonaro/Mourão que, no seu conjunto, permitem a redução proporcional da jornada de trabalho e dos salários, a antecipação de férias individuais e a concessão de férias coletivas, o estabelecimento de banco de horas, dentre outras medidas prejudiciais ao trabalhador.
Neste Primeiro de Maio, sob pretexto de fazer um enfrentamento unitário contra o governo Bolsonaro, diversas centrais sindicais optaram por montar um palanque virtual com vários de nossos inimigos de classe, entre eles Rodrigo Maia, Davi Alcolumbre, Dias Tófolli e Fernando Henrique Cardoso, personalidades que sempre se colocaram ao lado deste governo – e dos anteriores – nos momentos de ataque à classe trabalhadora. Por isso, não participaremos da construção nacional do Primeiro de Maio junto com as centrais sindicais e, pelo mesmo motivo, achamos imprescindível resgatar a origem e o sentido histórico desse dia, marco da luta da classe trabalhadora por direitos.
A data, estabelecida durante o Congresso Socialista da Segunda Internacional, em 1889, faz alusão à uma greve nacional nos Estados Unidos, iniciada em 1º de maio de 1886 e concluída em 4 de maio. Após o movimento paredista, três lideranças foram presas e cinco condenadas à morte, sendo executadas na forca. A luta, que envolveu milhares de trabalhadores, era pelo direto à jornada de trabalho de oito horas diárias, sem redução salarial, num momento histórico em que as jornadas chegavam a até dezesseis horas de trabalho.
Que a memória dos lutadores e das lutadoras da nossa classe permaneça viva neste Primeiro de Maio, alimentando nossa capacidade de sonhar e, sobretudo, nossa organização coletiva. Vamos à luta, porque a vida vale mais que lucro.






